Um dos maiores ensaios clínicos sobre o tema avaliou o uso do diamino fluoreto de prata em crianças pequenas com cárie severa e encontrou taxas significativamente maiores de paralisação das lesões em comparação ao placebo.
Um tratamento capaz de interromper a progressão da cárie sem o uso de broca ou anestesia acaba de ganhar novas evidências. Pesquisadores avaliaram o uso de diamino fluoreto de prata (SDF) a 38% em crianças pequenas com cárie severa e observaram que mais da metade das lesões tratadas permaneceu paralisada após seis meses.
Publicado no JAMA Pediatrics, o estudo clínico randomizado envolveu 830 crianças de 1 a 6 anos com cárie severa na primeira infância. Os participantes receberam SDF ou placebo, e os pesquisadores acompanharam a evolução das lesões ao longo de oito meses.
Após seis meses, 54% das lesões tratadas com SDF estavam paralisadas, enquanto a taxa foi de 22,5% no grupo placebo. Aos oito meses, após uma segunda aplicação do produto no sexto mês, a taxa de paralisação foi de 50,2%, contra 17,4% no grupo controle.
Como funciona?
O diamino fluoreto de prata é uma solução aplicada diretamente sobre a lesão de cárie. O tratamento combina a ação do flúor, que favorece a remineralização e aumenta a resistência dos tecidos dentários, com a ação da prata, que apresenta propriedades antimicrobianas.
Diferentemente de procedimentos restauradores convencionais, a aplicação não exige necessariamente a remoção mecânica do tecido cariado com uma broca. A proposta é controlar a atividade da lesão e impedir que ela continue avançando.
Essa característica pode ser especialmente relevante para crianças pequenas, pacientes com alto risco de cárie ou situações em que procedimentos convencionais são difíceis de realizar.
Uma alternativa para casos de cárie severa
A cárie severa na primeira infância pode exigir tratamentos extensos e, em alguns casos, procedimentos realizados sob anestesia geral. A doença pode provocar dor, infecção, perda dentária e impactos na alimentação, no desenvolvimento e na qualidade de vida das crianças.
Nesse contexto, uma intervenção rápida e minimamente invasiva, que possa ser realizada sem anestesia, pode representar uma alternativa importante para controlar a doença — especialmente quando o tratamento restaurador imediato não é viável.
Os pesquisadores também não encontraram diferenças relevantes na ocorrência de dor entre os grupos durante o acompanhamento.
O problema: o dente pode ficar preto
Apesar das vantagens clínicas, existe uma característica do SDF que pode limitar sua aceitação: a área de cárie tratada tende a escurecer permanentemente.
A mudança de cor ocorre principalmente pelas reações químicas envolvendo a prata na região da lesão. O tecido cariado pode adquirir uma coloração marrom-escura ou preta após o tratamento.
Esse efeito é uma das principais desvantagens estéticas da técnica, especialmente quando a lesão está localizada em dentes anteriores.
Paralisar a cárie sem usar a broca pode ser uma grande vantagem, mas a decisão precisa considerar também o impacto estético do escurecimento da lesão.
Por isso, a indicação do SDF envolve uma avaliação individual. Em alguns casos, a possibilidade de interromper uma doença ativa sem procedimentos invasivos pode ser considerada mais importante do que a alteração estética. Em outros, principalmente quando há grande preocupação com a aparência, o profissional pode optar por outras estratégias.
Não significa que a cárie desapareceu
Um ponto importante é que paralisar a cárie não significa reconstruir o dente.
O SDF pode interromper a progressão da lesão, mas não restaura automaticamente a anatomia perdida. Dependendo da extensão da destruição, da localização e das necessidades do paciente, uma restauração pode continuar sendo indicada.
Além disso, uma parcela significativa das lesões não foi paralisada. Por isso, o tratamento não deve ser encarado como uma solução isolada, mas como parte de uma estratégia mais ampla de controle da doença e acompanhamento clínico.
Uma mudança na forma de tratar a cárie
Os resultados reforçam uma tendência crescente da odontologia: em determinados casos, tratar a cárie não significa necessariamente remover todo o tecido afetado imediatamente.
A abordagem minimamente invasiva busca controlar a doença, preservar a estrutura dentária e reduzir a necessidade de procedimentos mais agressivos.
Para crianças com cárie severa, especialmente aquelas que apresentam dificuldade de cooperação ou precisam de múltiplos tratamentos, o diamino fluoreto de prata pode representar uma ferramenta importante.
O desafio agora é equilibrar eficácia, acompanhamento clínico e estética. Afinal, para algumas famílias, trocar uma intervenção com broca e anestesia por uma aplicação simples pode ser uma vantagem significativa — mesmo que isso signifique aceitar que a área tratada ficará permanentemente escura.
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