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O que acontece quando o paciente interrompe o tratamento periodontal?

  • agosto 24, 2026

Estudos analisam os impactos da interrupção das consultas periódicas e reforçam a importância do acompanhamento contínuo para o controle da periodontite.

A manutenção periodontal costuma acontecer depois da fase ativa do tratamento, quando o objetivo passa a ser controlar a doença e preservar os resultados alcançados. Mas o que acontece quando o paciente deixa de comparecer às consultas por meses ou até anos?

A pandemia de COVID-19 criou uma situação que permitiu aos pesquisadores observar justamente essa questão. Com clínicas fechadas ou consultas adiadas, milhares de pacientes em manutenção periodontal tiveram seus acompanhamentos interrompidos.

Agora, um estudo publicado no Journal of Periodontology analisou os registros de 279 pacientes que estavam em terapia de manutenção periodontal na University of Colorado School of Dental Medicine e tiveram suas consultas afetadas durante a pandemia.

Os intervalos entre as consultas antes e depois da pandemia foram bastante diferentes: 33,3% dos pacientes ficaram entre 12 e 23 meses sem uma consulta de manutenção, 49,8% entre 24 e 35 meses e 16,8% ficaram 36 meses ou mais sem o acompanhamento habitual.

A placa aumentou com a interrupção

O principal achado foi uma associação significativa entre períodos mais longos sem manutenção e uma maior quantidade de placa dental.

Para os pesquisadores, o resultado reforça uma função importante das consultas periódicas: elas não servem apenas para “fazer uma limpeza”, mas também para monitorar a condição periodontal, reforçar o controle do biofilme e identificar alterações antes que elas se tornem mais difíceis de controlar.

Entretanto, existe uma nuance importante.

O estudo não encontrou uma associação estatisticamente significativa entre o tempo de interrupção e alterações no nível de inserção clínica ou no sangramento à sondagem. Isso significa que não seria correto afirmar que todos os pacientes que ficaram sem manutenção necessariamente tiveram progressão da periodontite.

Outros estudos encontraram piora clínica

Os resultados de outras pesquisas ajudam a complementar essa história.

Um estudo realizado no Japão acompanhou 749 pacientes em terapia periodontal de suporte. Cerca de um terço adiou as consultas durante a pandemia, com uma média de aproximadamente 109 dias de atraso. Entre os pacientes classificados como de maior risco periodontal, períodos mais longos sem acompanhamento estiveram relacionados à piora de alguns parâmetros clínicos, incluindo a profundidade de sondagem.

Outro estudo, realizado com pacientes em terapia periodontal de suporte, encontrou aumento significativo de placa, sangramento à sondagem e profundidade de sondagem após seis meses de interrupção das consultas. O trabalho também observou aumento do consumo de tabaco em parte dos pacientes, um fator que pode ter contribuído para a piora observada.

Os resultados não são completamente iguais entre os estudos, mas apontam para uma mesma preocupação: quanto maior o intervalo sem acompanhamento, maior pode ser a dificuldade de manter o controle obtido durante o tratamento.

Por que a manutenção é tão importante?

A periodontite é uma doença crônica. Mesmo depois de controlada, o paciente continua apresentando fatores de risco que podem favorecer o retorno da inflamação.

A terapia periodontal de manutenção permite acompanhar a condição dos tecidos, avaliar o controle de placa, identificar bolsas periodontais que permanecem ativas e intervir quando necessário.

Além disso, o profissional consegue adaptar as orientações de higiene ao longo do tempo.

Por isso, a manutenção não deve ser entendida como uma etapa opcional ou como uma simples “limpeza de rotina”. Ela faz parte da estratégia de controle de uma doença que pode voltar a apresentar atividade.

Interromper não significa necessariamente perder os dentes

Outro cuidado importante é evitar uma interpretação alarmista.

Ficar alguns meses sem uma consulta periodontal não significa automaticamente que o paciente perderá dentes ou que a doença irá progredir rapidamente. A resposta varia conforme o risco individual.

Tabagismo, histórico da doença, controle de placa, presença de bolsas residuais, condições sistêmicas e adesão às orientações de higiene são alguns dos fatores que podem influenciar a estabilidade periodontal.

No estudo da Universidade do Colorado, por exemplo, o número de consultas de manutenção realizadas antes da pandemia apresentou uma associação inversa com o número de dentes perdidos durante o intervalo analisado. Já o tabagismo atual e o sexo masculino apresentaram associação positiva com a quantidade de dentes perdidos.

A pandemia acabou, mas a lição permanece

O mais interessante desses dados é que eles transformaram uma situação excepcional em uma espécie de experimento natural.

A pandemia mostrou o que pode acontecer quando uma etapa essencial do cuidado periodontal é interrompida em larga escala: o controle do biofilme pode piorar e alguns pacientes, especialmente aqueles de maior risco, podem apresentar deterioração de parâmetros clínicos.

Para a odontologia, a mensagem é clara: tratar a periodontite não significa apenas controlar a doença uma vez. É preciso acompanhar o paciente ao longo do tempo.

A frequência das consultas deve ser definida individualmente pelo cirurgião-dentista, de acordo com o risco e a condição periodontal de cada paciente.

No fim, a manutenção periodontal funciona menos como uma etapa final do tratamento e mais como um sistema contínuo de vigilância, justamente para evitar que uma doença controlada volte a ganhar espaço.

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