Estudo publicado na Scientific Reports investigou uma goma com componentes capazes de agregar partículas de HPV e reduzir bactérias associadas à doença em amostras de saliva. Tecnologia ainda precisa ser testada em pacientes.
Uma goma de mascar especialmente desenvolvida por pesquisadores americanos conseguiu reduzir significativamente a presença de microrganismos associados ao câncer de cabeça e pescoço em amostras de saliva e enxágue oral. Entre os resultados, a tecnologia conseguiu agregar até 93% do HPV presente em amostras de saliva e reduzir em mais de 99% duas espécies bacterianas associadas à doença.
O estudo, publicado na revista Scientific Reports, investigou uma estratégia que combina diferentes componentes bioativos em uma goma de mascar. A proposta é utilizar a própria mastigação para distribuir os agentes pela cavidade oral e atingir microrganismos presentes na saliva.
Como a goma funciona?
A estratégia utiliza dois mecanismos diferentes.
Para o HPV, os pesquisadores utilizaram uma proteína derivada da leguminosa conhecida como FRIL, presente no extrato de goma de feijão. A substância consegue se ligar às partículas virais e fazer com que elas se agreguem. Com isso, o vírus pode ser fisicamente concentrado e removido da fase líquida da saliva.
Nos testes realizados com amostras de pacientes com câncer de cabeça e pescoço, o componente agregou aproximadamente 93% do HPV detectado na saliva e cerca de 80% nas amostras de enxágue oral.
Para as bactérias, a formulação utilizou protegrina-1, um peptídeo com atividade antimicrobiana. A combinação da goma com a substância reduziu em mais de 99% a quantidade de Porphyromonas gingivalis e Fusobacterium nucleatum nas amostras analisadas.
Essas duas bactérias chamam atenção porque estão associadas a processos inflamatórios e à progressão de cânceres de cabeça e pescoço, embora a presença delas não signifique, isoladamente, que uma pessoa desenvolverá câncer.
E as bactérias “boas”?
Um dos aspectos mais interessantes da pesquisa é justamente a seletividade.
Os pesquisadores observaram que a protegrina-1 afetou as bactérias anaeróbias estudadas, mas apresentou pouco efeito sobre determinadas bactérias comensais, incluindo estreptococos encapsulados. Isso levanta a possibilidade de desenvolver uma intervenção capaz de atingir microrganismos associados à doença sem provocar uma eliminação indiscriminada da microbiota oral.
A preocupação é relevante porque a boca abriga um ecossistema extremamente complexo. Alterações na composição do microbioma podem estar relacionadas a mudanças na saúde oral e à inflamação.
A proposta acompanha uma nova tendência na ciência do microbioma: em vez de eliminar todos os microrganismos, buscar intervenções capazes de agir de forma mais seletiva.
Mas a goma não “cura” o HPV
É aqui que o resultado precisa ser interpretado com cuidado.
Os pesquisadores não demonstraram que a goma elimina uma infecção por HPV em seres humanos. O estudo analisou amostras de saliva e enxágue oral coletadas de pacientes e avaliou o que acontecia quando elas eram tratadas com os componentes da goma.
Ou seja: reduzir ou agregar partículas virais presentes na saliva é diferente de eliminar o HPV das células infectadas.
O próprio estudo classifica a estratégia como uma abordagem que ainda precisa de avaliação clínica adicional. Os autores sugerem que a goma poderia futuramente atuar como um tratamento complementar, mas não apresentam os resultados como uma forma comprovada de prevenção ou tratamento do câncer.
Qual é a relação entre HPV e câncer de cabeça e pescoço?
O HPV, especialmente alguns tipos de alto risco, está associado a uma parcela importante dos cânceres de orofaringe. A relação é particularmente estudada em tumores que atingem regiões como as amígdalas e a base da língua.
Isso não significa, entretanto, que toda pessoa com HPV oral desenvolverá câncer. A infecção é relativamente comum e, em muitos casos, pode desaparecer espontaneamente.
Por isso, reduzir a quantidade de vírus detectável na saliva não deve ser interpretado automaticamente como uma redução do risco de câncer.
Uma ideia que ainda precisa chegar aos pacientes
A pesquisa é interessante porque propõe uma abordagem diferente para o controle de microrganismos na cavidade oral: em vez de tentar eliminar indiscriminadamente toda a microbiota, a estratégia busca capturar o vírus e atingir seletivamente determinadas bactérias.
Os resultados também chamam atenção pela simplicidade do veículo. Uma goma de mascar poderia, em princípio, permanecer em contato com a saliva por mais tempo e distribuir os componentes pela boca de maneira relativamente simples.
Mas ainda existem várias etapas antes de uma eventual aplicação clínica. Será necessário determinar a dose adequada, a frequência de utilização, a segurança e, principalmente, se a redução desses microrganismos realmente produz algum benefício clínico para os pacientes.
Por enquanto, a goma deve ser encarada como uma tecnologia experimental promissora, e não como uma nova forma comprovada de prevenir HPV ou câncer de cabeça e pescoço.
O próximo passo será descobrir se o que funcionou em amostras de saliva também consegue produzir efeitos relevantes dentro da boca de pessoas — e se esses efeitos se traduzem, de fato, em benefícios para a saúde.
ODONTOLOGIA NEWs
Odontologia News tem como principal objetivo oferecer um conteúdo rico sobre o universo odontológico para os profissionais, pensando também nos pacientes e no público em geral.
Nossos artigos apresentam atualidades e dicas preciosas sobre tecnologia, inovação e gestão para seu consultório. Fique atento ao nosso blog para manter-se sempre bem-informado








